9 de dezembro de 2013

3 de dezembro de 2013

.no ea.

Ali, dois com dois,                             Foi quando nos entreolhamos que
sem regras, na memória                       dei de cara, espinho
não há regras,                                             na fuça,
nem pudor,                                 com o passado
a constituição somos                       emergente; emergência.
nós, constipados porque enlameados          Submergi. Gemi. Germinei
nós, que                                                              você.
sujos, moribundos e carniceiros,                              Pra voltar,
seremos nós, apenas.                                                     você.


Fiz um credo, corri               Notei que você é quem me possui
voei dali,                            por dentro e não me adianta fugir.
aprendi e pari o santo e              São de você meus quereres, coração 
         [e dentadura.
tornei-me anjo, mas não                   E é claro que a culpa é sua, 
                     [de quem mais seria?
resisti.                           A gramática será um berço, um escape
Consumido e descabido                    para onde correrei quando errado em
em mim,                                              sua matemática tatuagem.
dentro de                                  Eu já não aguento mais com falta de
você, não mais                         tempo-espaço-você: fatores determinantes 
[para
aqui.                                                 cada tempo-espaço-mim.

30 de novembro de 2013

.

mui                                                       ta
com
mui
   ta
     c   a   l   m   a
muit a
m uita

     a gente
soerga
     niz
        a


senão,                                                   vira   poema

.

se não é
sempre
não
como posso
estar vivo?

(h)1ano

posso ser humano
daqui um ano
ou pode um ano
me ser humano

Carapaça

existe saída onde
não existem portas
igual no vento
não ver formas

quem sou eu
afrente de mim?
quem sou eu
diante do mundo?

cara que passa.
carapaça?
cara heterogênea
ao mundo
o mundo é abstrato

o corpo é disfarce

15 de outubro de 2013

Sobre o Amor

Não, eu não me arrependo de ter dito que lhe amo, ali o dizer soava tonal – pairava em uníssono. Depois veio vindo o tempo e a distância, a noção de espaço... É isso! – a noção chutou o amor; a realidade empurrou o amor do sexto andar do prédio ou do pico da colina. Os eu te amos foram sendo proferidos incessantemente, como vírgulas. Pela inércia que tem a vírgula, meu amor, o amor do nosso amor despenca do ínfimo infinito. E eu, seu amor? E você, meu amor? E nós? Amor?

10 de outubro de 2013

A Flor

Não há, no mundo, nada mais indefeso que uma flor. Portanto, não há coisa mais impetuosa:

Primeiro, nos afeiçoamos pela composta beleza viva da flor. Em seguida, buscamos por detalhes dispostos em porções de flor, despindo-a. Eis que nos hipnotizamos pela flor. Então, superado o primeiro contato, observamos o local onde enraíza-se a flor – sem que cessem as lembranças formais da flor – e ficamos constrangidos; “não é o bastante para ela!”.
Contaminados pela nociva delicadeza e falsa modéstia, perguntamo-nos os porquês da flor! – Cada vez mais revoltados com o fato de ela carregar tamanha beleza; o sentimento transforma-se em ato barroco. Desumanizados pela maldição da flor, notamos a inveja e sentimo-nos miúdos, menores que a joaninha sobre a flor. Enquanto nasalamos o doce aroma, gradativamente, suscitamos a nós mesmos dó; dó pela fragilidade que tem a flor. Ah, vale destacar que o tipo mais resplandecente de beleza é a que pode ser facilmente destruída, frágil como flor.
Com ciúme camuflado pela posse da flor, nos comprometemos com missão de zelar por ela – submissos da flora. Sobra-nos a responsabilidade de matar a sede da flor (deixa-me enfatizar: matar!). Também, respectivo à morte, nos condenamos ao feitio de driblá-la, sediando luz por cima da flor. Até que, final e impacientemente, morre a flor. Aleluia!
Da flor que antes absorvia brilho e oxigênio, sobrará para nós a eterna culpa por tê-la desejado... E, talvez, um vaso.

Como prova de total amor
recolho o vaso e planto novamente:
aqui,

"aceite esta calêndula."

9 de outubro de 2013

O Enlaçar

Tenho crescido: por isso, inteiro me amedronto. Cada vez com maior frequência, reparo nas exigências para ser maturo
As pessoas realmente têm posto o amor de lado em função da rotina? E, ainda, por viverem, esquecem-se de serem felizes? Mas a própria vida não é uma incessante busca por bocados de felicidade? Então, de fato, aonde estamos indo se nem sabemos por onde ir? 
Espero não ser assim consumido. 
Espero te encontrar ao dobrar de alguma esquina. 
Espero poder esperar por tudo.

5 de setembro de 2013

(Des)fazer para (Re)fazer


Chegou o momento. É, devo traçar a linha - fronteira de giz que se desfará conforme o arrastar dos chinelos, mas só amanhã. Hoje eu traço a mim mesmo aqui, desde o asfalto da praça até a porta da tua casa. Abre a janela pra mim?

Riscos cândidos cingiram-se ao chão enquanto xaxados, desbravados por luz, se arrastavam como o mar. Espero ser como o mar, debruçando-me forte até chegar, cortês, de encontro ao teu dedão. E aí, então, na expectativa de escassez, súbito retorno – aprumando o topete com cristas pra vir te refrescar de novo – “Ó, Mar”.

2 de agosto de 2013

Transmutação da Imatéria

Coloco nosso amor em uma panela e aguardo o cozer, mexendo para que não encaroce. Assim que sublimam nervos e vigores sulfatados, levo cada restolho a uma vasilha hermeticamente lacrada. Espero pacientemente. Justaponho cuidadosamente o resultado por entre camadas de clara em neve – batida a partir de um pinto que nem nasceu, nem morreu. Planto o recipiente no jardim, entre húmus e tabule, ao meio dia, e o rego com plânulas de Aequorea victoria – mas o trabalho pesado, deixo às auxinas. Quando crescer a moita com ameixas frescas, de madrugada, separarei uma porção de bichos da seda para alimentar-se de fruto sagrado. Peço às Moiras que colham os casulos gêmeos, tratem do fio e teçam-no em longos e nebulosos brocados. Cerzirei o tecido divino às suas e às minhas vergonhas corrompidas e te amarei do mesmo jeito.

23 de julho de 2013

Omelete Extrínseco

Modos de peneirar, modos de mastigar, modos de lidar, modos de desenhar, modos de nadar, modos de respirar, modos de moer, modos de se portar. Sucção eufórica, respiração cutânea, lambida propulsora, visão periférica, semblante embaçado, audição apurada, voadoras rasantes. Cabide elétrico, ferro de mensurar, arma de afagar, garfo de serrilhar, aspirador de penas, palmito quântico, amiúde compaixão, omelete extrínseco, Marte. Roncar enquanto come, esquecer-se do que não é, ronronar para o cão, esquecer-se de ser, não ser.

A rotina tem me transformado não em prisioneiro, mas em prisão. Prendo o ônibus no chacoalhar espremido de corpos, prendo ideias na coceira de olhos, prendo a propagação em arcabouços e esfolo a face em limo – e sou rotina, incompleta e codificada. Falta-me tempo e sobra-me pesar. A rotina não nos deixa ser, mas o mundo é (de)composto por oitenta por cento hábitos e vinte por cento habitantes. Rotina é deificar a si enquanto acomoda-se, restringindo o tempo a um relógio e forrando o espaço com carpetes – bebe de um cálice de monopólios, você que é superlativo e proprietário de espaço, com cada vez menos tempo para almejar mais e maior espaço. Saiba que nada disso será isso: morreremos. O que não será não é, no máximo finge ser: Deus na rotina não é, você é que finge-O ser.

27 de maio de 2013

Ilhargas do Amor

Debaixo da tenda de quitutes de Dona Joaquina há duas carochas cascudas: uma é poetisa e outra não sei. Os poemas são interpretados numa língua que desconheço e cada vibração de sílaba é tão minuciosa que nada escuto. Poema verdadeiro e divino – vê-se pelo eriçar das antenas de uma e de outra carocha. Essa dança silenciosa cheia de reboliços minimalistas é a melhor definição de poesia. Dona Joaquina é amicíssima de sinhô Zé Barão, vira e mexe segue do igarapé até o meio do rio que beija a palafita do homem. Submersos são guardados os ziguezagues de uma família de planárias albinas: mais de vinte, quase um clã, daquela achatada à outra esguia. Dentre todas está uma desengonçada que enamora a enguia, mas enguia nem liga já que gosta abobalhada d’água viva, que deseja saudosa e serena pelo polvo, que mora agora no mar leitoso e não mais aos pés da palafita de sinhô Zé Barão. Maria Flor, que comia a tapioca de Dona Joaquina, quer saber se é por ali que vive Rosinha: “Ali, ó, na casa de pedrinha.” – aponta inutilmente o lugar ao segurança da vila, filho caçula de Zé Barão. Mal sabem eles que ali dentro mora mesmo Fada Madrinha, a gata foragida da casa ao lado. Fada Madrinha prefere ficar secretamente sozinha, já que sua pequena dona a apertava sem dó. “Pra quê tanta crueldade?” – indaga-se atordoada a rechonchuda gatinha. Eis que surge outro gato, mestiço com siamês, e mia: “isso é abraço, querida, é fruto de uma técnica criminosa – tal de ‘amor’.” Os gatos mialogaram com empenho sobre toda a perturbação do amor. Concluíram que a técnica era culpa do humano psicótico, planejada sumamente para traumatizar gatos; então lamberam surpresos os focinhos um do outro e dormiram serenos como um tapete arrepiado.

Ideia Prum Conto

Alguém morre e deve enfrentar os maiores medos, corpóreos e abstratos, cultivados ao longo da vida. A percepção não será mais concedida por um dos cinco sentidos, mas por um novo sentido – que abrange todos os outros, intuitivamente, através de ondas vibrantes. Depois de trivialidades e batalhas, sequenciadas de acordo com graus de insanidade dos medos, o alguém nota lentamente que nada acontece e, assim, supera cada temor. 
Nesse outro cosmo dimensional, dias são medidos pela libertação (e não consumação) do tempo. [Tempo: coisa que vai por retrocesso na morte.] Quando constata que inexiste o medo, já que é fruto da vida e não da morte, e conforma-se com isso, a pessoa volta a viver. E o agora volta a chibatar-lhe a pele delimitadora dos olhos, que ficavam e seriam cada vez mais pendidos e ressacados. O medo libertou o indivíduo da morte – aliás, dispondo melhor, aprisionou-o novamente ao casulo metamórfico da vida – já que seu maior medo agora era o de não morrer e enfrentar eterno colosso perpétuo conhecido por “presente” e transmitido a cada momento (o tempo só existe na vida!). 
Ao notar que a dúvida é o que existe de mais concreto, não sabe mais diferenciar real de irreal – nem sabe se poderia usar essas palavras, ou quaisquer palavras. Se o viam, se o ouviam ou se nada-o-iam, não sabia mais. Ou nunca soube.

16 de maio de 2013

A Dança

Flores de um dedão en dehors. Arabesque e ponché, quinta nos braços russos do mundo. Agora te desintegra pelo oceano: piruetes nu ao passo que explodem os arredores. Não há piedade, aquele que vê deve ser submetido a vertiginar e implorar por desabafo. Espanta de ti: rasga! Usa teus fouettés en tournant: flutua-te! Mente psíquica entregando a alma pelo corpo. Pelo corpo não, pelas frestas – elas que são ostensivamente vazias porque estão cheias de telecinésia desde o gênesis. Ao tocá-las conhecerás o segredo do nada: sorria. Acata-te a dor e transfigure-a em ondulada serenidade. Constrói um império celeste, com a proteção das trincheiras de lápis-lazúli cavadas por ronde jambes, à terre e en l'air, que se extinguem em relâmpagos um após o outro. Relâmpago: a obscuridade da luz, o contraste. Relâmpago na água: o controle gravitacional dos fractais, a dança. Tu estarás atrás da visão de quem te vê, lembrado e repetido simultaneamente. Serás sobreposto a ti próprio. Vá: flui pela não matéria de teu corpo que é própria matéria. Sê flashes de luz em forma de pointés. Equilibra-te sobre a linha tênue que demarca as dimensões: durante esta melodia de Tchaikovsky tu há de não existir mais. Solta aos poucos a barra e eis a figura de balancé birrento por saudade, prolixo, que é quando o tempo para. Milésimos de absortos segundos: o corpo contrai-se todo em músculos e alonga-se em ligamentos, cerra-te as costelas, eleva-te os calcanhares. Dançar é isso, falar com a boca emudecida e respirar sem oxigênio nas organelas. Mais fundo: é dominar cada célula e aproveitar a força motriz involuntária para transcender. Tudo dança.

14 de maio de 2013

A Água

A água é minha grande musa surrealista: nela mergulham Nanã, Oxum e Iemanjá. Bebendo da caldeira do mundo; babando uma cara orbitária para cada testa. É, ela é criadora, a água – somos cuspidos para fora do ventre marejado. E é esparzindo gotas de alma pelo teto que fenecemos – de volta para a mística água. Estou agora embriagado e desumanamente entorpecido pela vida que não me houve. Fico abissalmente imerso na vasilha onde se lava alface. Bebo água. Engulo lodo acrisolado. Afogo-me. Quero a inconsciência dinâmica, mas não a morte. Será que para manter um contato esférico com a água, preciso superar o obstáculo de ser morto por ela? Nada mais justo: se vim dela que ela mesma me leve por de baixo. Assim sendo, deixo a balbuciação no cais: volto a te escrever.

13 de maio de 2013

Águas Vivas

Hoje me deparei com a questão mais difícil do dia, veio no caminho para casa. Caminho de vista e caminho da vida, caminho de volta e caminho da morte. Eu pensava em como transcrever aquilo que via: tão intangível como a incompreensão que tenho ao ver pessoas indo para casa. O ciclo do desperdício: voltar para casa até morrer. É assim: saímos às ruas, a rotina alimenta-se do dia, voltamos para casa, dormimos; saímos às ruas, a rotina alimenta-se do dia, voltamos para casa, dormimos; saímos às ruas, a rotina alimenta-se do dia, voltamos para casa, dormimos. Até que a matemática se encarrega de transformar a gramática – dormir não é mais dormir. E no outro dia ninguém nota a onisciência de um ou de vários, ninguém se pergunta motivo, ninguém sabe se mudou de casa ou morreu, se é tragédia de vida ou se é tragédia de qualquer outra coisa – qual é a diferença se não há outro caminho? É tragédia por estar vivo. Não lhe deixa inquieto que vamos através da vida, de trem ou ônibus, a pé ou de carro? É superficialmente de uma ponta a outra, nem ao menos nadamos no raso. Só pisamos em conchas que ferem nossos pés. Estou chegando ao mar. Vou falar a vocês sobre o mar. Sobre as ondas incessantes que compõe seu dialeto, redundantes como a frase e a mim. Redundantes de novo pelo ciclo, composto de imagem de onda e sonido de onda, ambos vão e voltam como frequências atingindo mais que cristalinos e tímpanos. Elas são e não são ondas, são não sendo parte desse mundo: como nós voltando pra casa. Será em suas crinas que somos carregados à morte, como o metrô nos carrega pela vida? Eu procuro um modo de ser como as águas vivas, que fluem para a morte, mergulhadas na mesma água com a qual se deu a origem – delas e nossa. Evaporam na areia. É tamanho cansaço do repetido que não fazem força nos flagelos para moverem-se quando empacam no raso. Só vão, voando ainda, para o céu de agora. Como elas, recuso-me a ser um dentre os sistemáticos. Elas que já foram pólipos para desgrudar-se da terra. Elas que neste instante voam pelos mares. Elas, cíclicas como a volta para a casa, mas dessa vez emocionantes porque escorrem para partes desconhecidas do cosmo – onde nem a morte e nem a vida prospera. Quero que me atinjam os cnidoblastos. Quero que me evapore o Sol, que seja por indução de força concebido o movimento: Inércia. Inércia da água que cria. Metamorfose aquática: há aquela espécie com tão violento ciclo que não é atingida pela morte. Vive? Mais que você, mais que eu, mais. Ela se une de novo aos artefatos terrestres antes que a morte lhe apanhe; voa contrastante medusa. O segredo da vida conferido à água, isso são as águas vivas.