14 de maio de 2013

A Água

A água é minha grande musa surrealista: nela mergulham Nanã, Oxum e Iemanjá. Bebendo da caldeira do mundo; babando uma cara orbitária para cada testa. É, ela é criadora, a água – somos cuspidos para fora do ventre marejado. E é esparzindo gotas de alma pelo teto que fenecemos – de volta para a mística água. Estou agora embriagado e desumanamente entorpecido pela vida que não me houve. Fico abissalmente imerso na vasilha onde se lava alface. Bebo água. Engulo lodo acrisolado. Afogo-me. Quero a inconsciência dinâmica, mas não a morte. Será que para manter um contato esférico com a água, preciso superar o obstáculo de ser morto por ela? Nada mais justo: se vim dela que ela mesma me leve por de baixo. Assim sendo, deixo a balbuciação no cais: volto a te escrever.

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