27 de maio de 2013

Ilhargas do Amor

Debaixo da tenda de quitutes de Dona Joaquina há duas carochas cascudas: uma é poetisa e outra não sei. Os poemas são interpretados numa língua que desconheço e cada vibração de sílaba é tão minuciosa que nada escuto. Poema verdadeiro e divino – vê-se pelo eriçar das antenas de uma e de outra carocha. Essa dança silenciosa cheia de reboliços minimalistas é a melhor definição de poesia. Dona Joaquina é amicíssima de sinhô Zé Barão, vira e mexe segue do igarapé até o meio do rio que beija a palafita do homem. Submersos são guardados os ziguezagues de uma família de planárias albinas: mais de vinte, quase um clã, daquela achatada à outra esguia. Dentre todas está uma desengonçada que enamora a enguia, mas enguia nem liga já que gosta abobalhada d’água viva, que deseja saudosa e serena pelo polvo, que mora agora no mar leitoso e não mais aos pés da palafita de sinhô Zé Barão. Maria Flor, que comia a tapioca de Dona Joaquina, quer saber se é por ali que vive Rosinha: “Ali, ó, na casa de pedrinha.” – aponta inutilmente o lugar ao segurança da vila, filho caçula de Zé Barão. Mal sabem eles que ali dentro mora mesmo Fada Madrinha, a gata foragida da casa ao lado. Fada Madrinha prefere ficar secretamente sozinha, já que sua pequena dona a apertava sem dó. “Pra quê tanta crueldade?” – indaga-se atordoada a rechonchuda gatinha. Eis que surge outro gato, mestiço com siamês, e mia: “isso é abraço, querida, é fruto de uma técnica criminosa – tal de ‘amor’.” Os gatos mialogaram com empenho sobre toda a perturbação do amor. Concluíram que a técnica era culpa do humano psicótico, planejada sumamente para traumatizar gatos; então lamberam surpresos os focinhos um do outro e dormiram serenos como um tapete arrepiado.

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