Hoje me deparei com a questão mais difícil do dia, veio no caminho para casa. Caminho de vista e caminho da vida, caminho de volta e
caminho da morte. Eu pensava em como transcrever aquilo que via: tão intangível como a
incompreensão que tenho ao ver pessoas indo para casa. O ciclo do desperdício:
voltar para casa até morrer. É assim: saímos às ruas, a rotina alimenta-se do
dia, voltamos para casa, dormimos; saímos às ruas, a rotina alimenta-se do dia,
voltamos para casa, dormimos; saímos às ruas, a rotina alimenta-se do dia,
voltamos para casa, dormimos. Até que a matemática se encarrega de transformar
a gramática – dormir não é mais dormir. E no outro dia ninguém nota a
onisciência de um ou de vários, ninguém se pergunta motivo, ninguém sabe se
mudou de casa ou morreu, se é tragédia de vida ou se é tragédia de qualquer
outra coisa – qual é a diferença se não há outro caminho? É tragédia por estar
vivo. Não lhe deixa inquieto que vamos através da vida, de trem ou ônibus, a pé
ou de carro? É superficialmente de uma ponta a outra, nem ao menos nadamos no
raso. Só pisamos em conchas que ferem nossos pés. Estou chegando ao mar. Vou
falar a vocês sobre o mar. Sobre as ondas incessantes que compõe seu dialeto,
redundantes como a frase e a mim. Redundantes de novo pelo ciclo, composto de
imagem de onda e sonido de onda, ambos vão e voltam como frequências atingindo mais
que cristalinos e tímpanos. Elas são e não são ondas, são não sendo parte desse
mundo: como nós voltando pra casa. Será em suas crinas que somos carregados à
morte, como o metrô nos carrega pela vida? Eu procuro um modo de ser como as
águas vivas, que fluem para a morte, mergulhadas na mesma água com a qual se
deu a origem – delas e nossa. Evaporam na areia. É tamanho cansaço do repetido que não fazem
força nos flagelos para moverem-se quando empacam no raso. Só vão, voando ainda,
para o céu de agora. Como elas, recuso-me a ser um dentre os sistemáticos. Elas que já
foram pólipos para desgrudar-se da terra. Elas que neste instante voam pelos mares.
Elas, cíclicas como a volta para a casa, mas dessa vez emocionantes porque
escorrem para partes desconhecidas do cosmo – onde nem a morte e nem a vida
prospera. Quero que me atinjam os cnidoblastos. Quero que me evapore o Sol, que
seja por indução de força concebido o movimento: Inércia. Inércia da água que cria.
Metamorfose aquática: há aquela espécie com tão violento ciclo que não é
atingida pela morte. Vive? Mais que você, mais que eu, mais. Ela se une de novo aos
artefatos terrestres antes que a morte lhe apanhe; voa contrastante medusa. O
segredo da vida conferido à água, isso são as águas vivas.
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