10 de outubro de 2013

A Flor

Não há, no mundo, nada mais indefeso que uma flor. Portanto, não há coisa mais impetuosa:

Primeiro, nos afeiçoamos pela composta beleza viva da flor. Em seguida, buscamos por detalhes dispostos em porções de flor, despindo-a. Eis que nos hipnotizamos pela flor. Então, superado o primeiro contato, observamos o local onde enraíza-se a flor – sem que cessem as lembranças formais da flor – e ficamos constrangidos; “não é o bastante para ela!”.
Contaminados pela nociva delicadeza e falsa modéstia, perguntamo-nos os porquês da flor! – Cada vez mais revoltados com o fato de ela carregar tamanha beleza; o sentimento transforma-se em ato barroco. Desumanizados pela maldição da flor, notamos a inveja e sentimo-nos miúdos, menores que a joaninha sobre a flor. Enquanto nasalamos o doce aroma, gradativamente, suscitamos a nós mesmos dó; dó pela fragilidade que tem a flor. Ah, vale destacar que o tipo mais resplandecente de beleza é a que pode ser facilmente destruída, frágil como flor.
Com ciúme camuflado pela posse da flor, nos comprometemos com missão de zelar por ela – submissos da flora. Sobra-nos a responsabilidade de matar a sede da flor (deixa-me enfatizar: matar!). Também, respectivo à morte, nos condenamos ao feitio de driblá-la, sediando luz por cima da flor. Até que, final e impacientemente, morre a flor. Aleluia!
Da flor que antes absorvia brilho e oxigênio, sobrará para nós a eterna culpa por tê-la desejado... E, talvez, um vaso.

Como prova de total amor
recolho o vaso e planto novamente:
aqui,

"aceite esta calêndula."

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