Não há, no mundo,
nada mais indefeso que uma flor. Portanto, não há coisa mais impetuosa:
Primeiro, nos
afeiçoamos pela composta beleza viva da flor. Em seguida, buscamos
por detalhes dispostos em porções de flor, despindo-a. Eis que nos hipnotizamos
pela flor. Então, superado o primeiro contato, observamos o local onde enraíza-se
a flor – sem que cessem as lembranças formais da flor – e ficamos constrangidos;
“não é o bastante para ela!”.
Contaminados pela
nociva delicadeza e falsa modéstia, perguntamo-nos os porquês da flor! – Cada
vez mais revoltados com o fato de ela carregar tamanha beleza; o sentimento
transforma-se em ato barroco. Desumanizados pela maldição da flor, notamos a
inveja e sentimo-nos miúdos, menores que a joaninha sobre a flor. Enquanto
nasalamos o doce aroma, gradativamente, suscitamos a nós mesmos dó; dó pela fragilidade
que tem a flor. Ah, vale destacar que o tipo mais resplandecente de beleza é a
que pode ser facilmente destruída, frágil como flor.
Com ciúme camuflado
pela posse da flor, nos comprometemos com missão de zelar por ela – submissos
da flora. Sobra-nos a responsabilidade de matar a sede da flor (deixa-me
enfatizar: matar!). Também, respectivo à morte, nos condenamos ao feitio de
driblá-la, sediando luz por cima da flor. Até que, final e impacientemente,
morre a flor. Aleluia!
Da flor que antes absorvia
brilho e oxigênio, sobrará para nós a eterna culpa por tê-la desejado... E,
talvez, um vaso.
Como prova de total amor
recolho o vaso e planto novamente:
aqui,
"aceite esta calêndula."
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