16 de maio de 2013

A Dança

Flores de um dedão en dehors. Arabesque e ponché, quinta nos braços russos do mundo. Agora te desintegra pelo oceano: piruetes nu ao passo que explodem os arredores. Não há piedade, aquele que vê deve ser submetido a vertiginar e implorar por desabafo. Espanta de ti: rasga! Usa teus fouettés en tournant: flutua-te! Mente psíquica entregando a alma pelo corpo. Pelo corpo não, pelas frestas – elas que são ostensivamente vazias porque estão cheias de telecinésia desde o gênesis. Ao tocá-las conhecerás o segredo do nada: sorria. Acata-te a dor e transfigure-a em ondulada serenidade. Constrói um império celeste, com a proteção das trincheiras de lápis-lazúli cavadas por ronde jambes, à terre e en l'air, que se extinguem em relâmpagos um após o outro. Relâmpago: a obscuridade da luz, o contraste. Relâmpago na água: o controle gravitacional dos fractais, a dança. Tu estarás atrás da visão de quem te vê, lembrado e repetido simultaneamente. Serás sobreposto a ti próprio. Vá: flui pela não matéria de teu corpo que é própria matéria. Sê flashes de luz em forma de pointés. Equilibra-te sobre a linha tênue que demarca as dimensões: durante esta melodia de Tchaikovsky tu há de não existir mais. Solta aos poucos a barra e eis a figura de balancé birrento por saudade, prolixo, que é quando o tempo para. Milésimos de absortos segundos: o corpo contrai-se todo em músculos e alonga-se em ligamentos, cerra-te as costelas, eleva-te os calcanhares. Dançar é isso, falar com a boca emudecida e respirar sem oxigênio nas organelas. Mais fundo: é dominar cada célula e aproveitar a força motriz involuntária para transcender. Tudo dança.

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