Debaixo da tenda
de quitutes de Dona Joaquina há duas carochas cascudas: uma é poetisa e outra não
sei. Os poemas são interpretados numa língua que desconheço e cada vibração de
sílaba é tão minuciosa que nada escuto. Poema verdadeiro e divino – vê-se pelo
eriçar das antenas de uma e de outra carocha. Essa dança silenciosa cheia de
reboliços minimalistas é a melhor definição de poesia. Dona Joaquina é amicíssima
de sinhô Zé Barão, vira e mexe segue do igarapé até o meio do rio que beija a
palafita do homem. Submersos são guardados os ziguezagues de uma família de
planárias albinas: mais de vinte, quase um clã, daquela achatada à outra esguia.
Dentre todas está uma desengonçada que enamora a enguia, mas enguia nem liga já
que gosta abobalhada d’água viva, que deseja saudosa e serena pelo polvo, que
mora agora no mar leitoso e não mais aos pés da palafita de sinhô Zé Barão. Maria
Flor, que comia a tapioca de Dona Joaquina, quer saber se é por ali que vive Rosinha:
“Ali, ó, na casa de pedrinha.” – aponta inutilmente o lugar ao segurança da
vila, filho caçula de Zé Barão. Mal sabem eles que ali dentro mora mesmo Fada
Madrinha, a gata foragida da casa ao lado. Fada Madrinha prefere ficar secretamente
sozinha, já que sua pequena dona a apertava sem dó. “Pra quê tanta crueldade?” –
indaga-se atordoada a rechonchuda gatinha. Eis que surge outro gato, mestiço
com siamês, e mia: “isso é abraço, querida, é fruto de uma técnica criminosa –
tal de ‘amor’.” Os gatos mialogaram com empenho sobre toda a perturbação do
amor. Concluíram que a técnica era culpa do humano psicótico, planejada
sumamente para traumatizar gatos; então lamberam surpresos os focinhos um do
outro e dormiram serenos como um tapete arrepiado.
27 de maio de 2013
Ideia Prum Conto
Alguém morre e
deve enfrentar os maiores medos, corpóreos e abstratos, cultivados ao longo da
vida. A percepção não será mais concedida por um dos cinco sentidos, mas por um
novo sentido – que abrange todos os outros, intuitivamente, através de ondas
vibrantes. Depois de trivialidades e batalhas, sequenciadas de acordo com graus
de insanidade dos medos, o alguém nota lentamente que nada acontece e, assim, supera cada temor.
Nesse outro cosmo dimensional, dias são medidos pela libertação (e não
consumação) do tempo. [Tempo: coisa que vai por retrocesso na morte.] Quando
constata que inexiste o medo, já que é fruto da vida e não da morte, e
conforma-se com isso, a pessoa volta a viver. E o agora volta a chibatar-lhe a
pele delimitadora dos olhos, que ficavam e seriam cada vez mais pendidos e ressacados.
O medo libertou o indivíduo da morte – aliás, dispondo melhor, aprisionou-o
novamente ao casulo metamórfico da vida – já que seu maior medo agora era o de
não morrer e enfrentar eterno colosso perpétuo conhecido por “presente” e
transmitido a cada momento (o tempo só existe na vida!).
Ao notar que a dúvida
é o que existe de mais concreto, não sabe mais diferenciar real de irreal – nem
sabe se poderia usar essas palavras, ou quaisquer palavras. Se o viam, se o
ouviam ou se nada-o-iam, não sabia mais. Ou nunca soube.
16 de maio de 2013
A Dança
Flores de um
dedão en dehors. Arabesque e ponché, quinta nos braços russos do mundo. Agora
te desintegra pelo oceano: piruetes nu ao passo que explodem os arredores. Não
há piedade, aquele que vê deve ser submetido a vertiginar e implorar por
desabafo. Espanta de ti: rasga! Usa teus fouettés en tournant: flutua-te! Mente
psíquica entregando a alma pelo corpo. Pelo corpo não, pelas frestas – elas que
são ostensivamente vazias porque estão cheias de telecinésia desde o gênesis.
Ao tocá-las conhecerás o segredo do nada: sorria. Acata-te a dor e transfigure-a
em ondulada serenidade. Constrói um império celeste, com a proteção das trincheiras
de lápis-lazúli cavadas por ronde jambes, à terre e en l'air, que se extinguem em relâmpagos um após
o outro. Relâmpago: a obscuridade da luz, o contraste. Relâmpago na água: o
controle gravitacional dos fractais, a dança. Tu estarás atrás da visão de quem
te vê, lembrado e repetido simultaneamente. Serás sobreposto a ti próprio. Vá:
flui pela não matéria de teu corpo que é própria matéria. Sê flashes de luz em
forma de pointés. Equilibra-te sobre a linha tênue que demarca as dimensões: durante
esta melodia de Tchaikovsky tu há de não existir mais. Solta aos poucos a barra
e eis a figura de balancé birrento por saudade, prolixo, que é quando o tempo
para. Milésimos de absortos segundos: o corpo contrai-se todo em músculos e
alonga-se em ligamentos, cerra-te as costelas, eleva-te os calcanhares. Dançar
é isso, falar com a boca emudecida e respirar sem oxigênio nas organelas. Mais
fundo: é dominar cada célula e aproveitar a força motriz involuntária para
transcender. Tudo dança.
14 de maio de 2013
A Água
A água é minha grande musa surrealista: nela mergulham
Nanã, Oxum e Iemanjá. Bebendo da caldeira do mundo; babando uma cara orbitária
para cada testa. É, ela é criadora, a água – somos cuspidos para fora do ventre
marejado. E é esparzindo gotas de alma pelo teto que fenecemos – de volta para a
mística água. Estou agora embriagado e desumanamente entorpecido pela vida que não
me houve. Fico abissalmente imerso na vasilha onde se lava alface. Bebo água. Engulo lodo acrisolado. Afogo-me. Quero a
inconsciência dinâmica, mas não a morte. Será que para manter um contato esférico
com a água, preciso superar o obstáculo de ser morto por ela? Nada mais justo:
se vim dela que ela mesma me leve por de baixo. Assim sendo, deixo a
balbuciação no cais: volto a te escrever.
13 de maio de 2013
Águas Vivas
Hoje me deparei com a questão mais difícil do dia, veio no caminho para casa. Caminho de vista e caminho da vida, caminho de volta e
caminho da morte. Eu pensava em como transcrever aquilo que via: tão intangível como a
incompreensão que tenho ao ver pessoas indo para casa. O ciclo do desperdício:
voltar para casa até morrer. É assim: saímos às ruas, a rotina alimenta-se do
dia, voltamos para casa, dormimos; saímos às ruas, a rotina alimenta-se do dia,
voltamos para casa, dormimos; saímos às ruas, a rotina alimenta-se do dia,
voltamos para casa, dormimos. Até que a matemática se encarrega de transformar
a gramática – dormir não é mais dormir. E no outro dia ninguém nota a
onisciência de um ou de vários, ninguém se pergunta motivo, ninguém sabe se
mudou de casa ou morreu, se é tragédia de vida ou se é tragédia de qualquer
outra coisa – qual é a diferença se não há outro caminho? É tragédia por estar
vivo. Não lhe deixa inquieto que vamos através da vida, de trem ou ônibus, a pé
ou de carro? É superficialmente de uma ponta a outra, nem ao menos nadamos no
raso. Só pisamos em conchas que ferem nossos pés. Estou chegando ao mar. Vou
falar a vocês sobre o mar. Sobre as ondas incessantes que compõe seu dialeto,
redundantes como a frase e a mim. Redundantes de novo pelo ciclo, composto de
imagem de onda e sonido de onda, ambos vão e voltam como frequências atingindo mais
que cristalinos e tímpanos. Elas são e não são ondas, são não sendo parte desse
mundo: como nós voltando pra casa. Será em suas crinas que somos carregados à
morte, como o metrô nos carrega pela vida? Eu procuro um modo de ser como as
águas vivas, que fluem para a morte, mergulhadas na mesma água com a qual se
deu a origem – delas e nossa. Evaporam na areia. É tamanho cansaço do repetido que não fazem
força nos flagelos para moverem-se quando empacam no raso. Só vão, voando ainda,
para o céu de agora. Como elas, recuso-me a ser um dentre os sistemáticos. Elas que já
foram pólipos para desgrudar-se da terra. Elas que neste instante voam pelos mares.
Elas, cíclicas como a volta para a casa, mas dessa vez emocionantes porque
escorrem para partes desconhecidas do cosmo – onde nem a morte e nem a vida
prospera. Quero que me atinjam os cnidoblastos. Quero que me evapore o Sol, que
seja por indução de força concebido o movimento: Inércia. Inércia da água que cria.
Metamorfose aquática: há aquela espécie com tão violento ciclo que não é
atingida pela morte. Vive? Mais que você, mais que eu, mais. Ela se une de novo aos
artefatos terrestres antes que a morte lhe apanhe; voa contrastante medusa. O
segredo da vida conferido à água, isso são as águas vivas.
Assinar:
Postagens (Atom)