Alguém morre e
deve enfrentar os maiores medos, corpóreos e abstratos, cultivados ao longo da
vida. A percepção não será mais concedida por um dos cinco sentidos, mas por um
novo sentido – que abrange todos os outros, intuitivamente, através de ondas
vibrantes. Depois de trivialidades e batalhas, sequenciadas de acordo com graus
de insanidade dos medos, o alguém nota lentamente que nada acontece e, assim, supera cada temor.
Nesse outro cosmo dimensional, dias são medidos pela libertação (e não
consumação) do tempo. [Tempo: coisa que vai por retrocesso na morte.] Quando
constata que inexiste o medo, já que é fruto da vida e não da morte, e
conforma-se com isso, a pessoa volta a viver. E o agora volta a chibatar-lhe a
pele delimitadora dos olhos, que ficavam e seriam cada vez mais pendidos e ressacados.
O medo libertou o indivíduo da morte – aliás, dispondo melhor, aprisionou-o
novamente ao casulo metamórfico da vida – já que seu maior medo agora era o de
não morrer e enfrentar eterno colosso perpétuo conhecido por “presente” e
transmitido a cada momento (o tempo só existe na vida!).
Ao notar que a dúvida
é o que existe de mais concreto, não sabe mais diferenciar real de irreal – nem
sabe se poderia usar essas palavras, ou quaisquer palavras. Se o viam, se o
ouviam ou se nada-o-iam, não sabia mais. Ou nunca soube.
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