Tu roubas de mim poesias violentas, as quais
recitarei sorrindo sob luz verdejante – luz dos teus olhos que julgam, mas não
veem. Tudo é completamente findável, que fique claro. O tudo que nos acoberta
resiste tracionado apenas por fio, fio da meada, filete, fio da vida. Cerraram-se
as cortinas dos teus olhos e agora fui ao limbo – fuga de dentro do corpo que
busca sentir o inusitado. Aos momentos de instabilidade, apenas digo que sejam
engolidos. Descontrolo-me por trajetos em esmo à flor da pele. Gero andanças no
escuro, contornadas por diálogos solitários.
Esqueço-me que respiro – e, por esquecer, lembrei
logo em seguida. Inspiro partículas do universo e expiro o argônio imutado de
tempos atrás – elemento de mestres e nefastos, nosso e
desconjuntado. Neste refúgio, agora evidenciado pela fisiologia hermética do ar, libero
sangue de pudor, de exagero e de miscelânea. Eu, que impreciso como sou, salto sobre estruturas diagonais que unem mente e superfície – a dualidade oposta de
mundos. Abrem teus olhos. Estou agora atônito: onde estará instalado teu amor
temperamental? Tu me amas por ti próprio e em ti eu também caibo, volátil como
sou? Espaço-me. Pontuo-te. Desenlaço-me
de mim.
Estou a dizer: o que é comunicado, quando não se
sabe o quê? A quem, quando se desconhece sujeito? De que forma senão esta, em
que posso dizer não sei a ninguém? Ninguém o sabe dizer.
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